quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A estranheza da morte

A cadeira em que se sentava todos os dias ainda continua ali, imponente, como se dissesse - eu já tenho dona, eu pertenço a alguém. Sobre a mesa ainda repousam suas coisas. A agenda desgastada pelo tempo, pelo suor das mãos que a carregava, ainda ontem, para fazer as mais diversas anotações. Alguns livros para consulta. Papéis que guardam sua letra torta. Um barquinho da ultima viagem que fez pra praia. Tudo do mesmo jeito em que deixara no dia em que saiu para não voltar.

As gavetas, ah... as gavetas. Guardam sua alma, o que achava mais importante protegido dentro de caixas de madeira. Como abri-las? Como desproteger suas particularidades? Como vasculhar suas coisas? Tal como uma indigente, como se procurássemos provas contra alguma coisa que tenha feito sendo que seu único crime foi não voltar. Não porque não quis voltar, quis. Mas porque a vida, o destino, Deus, ou seja qual for a explicação, não deixaram.

Como reagir ao saber que aquela pessoa, sim, aquela com quem eu conversei ontem, aquela com quem eu ri ontem, não está mais aqui. Não está e não estará nunca mais. Sinto um frio estranho no peito, uma pequena falta de ar claustrofóbica, o coração desconpassa. Tudo fica meio preto e branco, o silêncio finca dentro do peito, o ar gelado atravessa meus pulmões. Vejo um filme, rápidas cenas dela aqui, agora. Seria tudo isso um sonho ou a mais crua realidade? É difícil se dar conta.

Um estranho crescia dentro dela sem ela saber. Consumia seu corpo, suas forças, sua energia, aos poucos. Traiçoeiro se esbeirava pelos cantos, soturno, silencioso, crescendo, crescendo. Porque ela e não eu ou aquele cara passando ali na rua? Haveria algum motivo para ela ser a escolhida e não outra pessoa? Porque? Será que pode acontecer comigo também? Será que eu poderia evitar?

A sensação de estranhamento me domina o dia todo, não só a mim, mas a todos que perderam uma colega jovem pro câncer. Todos meio sem lugar, meio sem saber o que falar ou como falar. Mas seguimos porque temos que seguir. Ignoramos porque temos que sobreviver. Ainda estamos vivos. O tempo passa, assim como ela passou apressada pela vida, por nossas vidas. E esqueceremos, querendo ou não, esqueceremos. E chegará o dia em que abriremos suas gavetas, mexeremos em seus papéis, seus pertences, esvaziaremos sua mesa, assim como ela esvaziou um pouquinho nossas vidas.

Escrevo este texto em homenagem a uma colega de trabalho que partiu semana passada depois de lutar durante quase um ano contra um câncer raro. Que Deus te leve em paz.

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