domingo, 27 de julho de 2014

O Encantador da Montanha de Eduardo Moreira


Sempre tive problemas com auto ajuda e palestras motivacionais. Acho que não existe uma série de regras ou leis a serem seguidas pra encontrar a felicidade. Não existe uma bula ou um manual ensinando a ser feliz. Isso nunca existiu pra mim. Cada um vive à sua maneira, cada um tem um jeito de viver e de ser feliz, encontrar a felicidade é algo muito particular, é uma experiência individual, não pode ser ensinada a ninguém. Esse meu problema com esse tipo de literatura se tornou ainda mais latente quando terminei de ler O Encantador de Montanhas (Eduardo Moreira - Record - 159 pgs).

O livro começa com uma apresentação um tanto duvidosa, nela o autor conta que escreveu o livro aos dezessete anos - o que talvez explique a escrita quase infantil - através de sonhos que teve, tais sonhos viam prontos, inclusive com nomes de personagens e lugares. Conta ainda que algum tempo depois de escrever a história viria a descobrir, por acaso, que a montanha do livro existia de verdade e que ele já havia a visitado sem saber que se tratava do mesmo local de sua história. Esse é só um dos relatos "mágicos" da apresentação do livro.

Que me perdoem os fãs do autor, mas eu não engoli essa história fantasiosa nem por um minuto e ela ficou engasgada na minha garganta durante toda a leitura do livro provocando, na maior parte do tempo, uma certa desconfiança com a história desenvolvida. Mais tarde vi um vídeo do autor em que ele conta as mesmas abobrinhas e minha impressão não mudou, trata-se de um ótimo contador de histórias e um ótimo vendedor. Não por acaso ele parece fazer bastante sucesso entre os leitores brasileiros que adoram um bom e velho livro de auto ajuda.

Repleto de temas clichês, é possível adivinhar as próximas palavras de cada capítulo do livro. Apesar disso, é possível tirar alguns bons ensinamentos ao final da leitura e o último capítulo, com clima de despedida, acaba emocionando o leitor. A principal mensagem da narrativa é o contato com a natureza, através dela seria possível tocar a alma do mundo. Nesse ponto não posso concordar mais com o autor, só quem já experimentou essa sensação de plenitude é capaz de dizer como é confortante. O livro traz ainda ensinamentos sobre meditação, paz interior, medo, amor e solidão.

Apesar de ter tirado algumas coisas boas do livro, tenho um sério problema com esses "palestrantes motivacionais" que prometem mudar a vida das pessoas através de uma fórmula mágica que descobriram de um jeito "x" em suas vidas. Cada um leva a vida como pode, ninguém sabe mais que outro sobre como viver a vida de uma forma mais correta. Não existe fórmula pra isso. Esses ensinamentos são muito bonitos, mas na vida real é impossível aplicá-los a todo momento.

Me incomoda as pessoas que querem de alguma forma dizer como as outras devem viver suas vidas, como se fossem muito sábias, como se tivessem um poder extra terreno ou como se tivessem vivido mais e mais intensamente que o restante pra saber tais fórmulas mágicas. Isso não se aplica só a livros de auto ajuda, eu também me incomodo com palestras motivacionais, lições de vida de qualquer tipo, líderes religiosos que gostam de impor uma série de regras pra alcançar a felicidade - leia-se salvação.

Se me permitem, aqui vai uma regra/lição e vida: não procure regras pra ser feliz, apenas viva, no caminho você certamente vai achar suas respostas. E eu achei mais uma hoje, livros de auto ajuda não são pra mim.

domingo, 20 de julho de 2014

O Sal da Vida de Françoise Héritier


Terminei de ler essa semana o simpático "O Sal da Vida" de Françoise Héritier, famosa antropóloga e etnóloga francesa, em seu primeiro livro do tipo romance. O livro é bem diferente de todos que já li. São cartas cheias de citações do que é, pra ela, autora do livro, o sal da vida, da sua vida em particular. E o mais surpreendente e gostoso do livro é que não são grandes feitos, grandes realizações. São coisas simples, do dia a dia, mas que fazem toda a diferença quando tratadas com outro olhar.

Exatamente por essa simplicidade o livro é tão gostoso de ler, quase como deliciar-se com uma torta de morangos silvestres num fim de tarde de sábado. É impossível não pegar-se rindo ao ler um ou outro trecho ou ainda lembrar-se de alguma situação parecida que também tenha lhe ocorrido. Diz ela: "nada disso [o que ela diz ser o sal da vida] é uma coisa de outro mundo [...] o que sou eu além das definições exteriores que podem dar de mim [...] o eu não é somente aquele que pensa e que faz, mas aquele que sente e que experimenta".

Ao final do livro ela deixa algumas páginas em branco para que o leitor possa escrever o que pra ele é o sal da vida. Então, vou fazer isso por aqui e recomendo muitíssimo que todos o façam  também porque é um exercício delicioso e um pouco viciante.

Observar as pessoas andando na rua pela janela do ônibus, voltar a pé pra casa no meio da noite ouvindo uma boa música nos fones de ouvido, acordar atrasado todo dia e prometer que no dia seguinte será diferente, fazer um caminho alternativo ao usual, esquecer se realmente trancou o carro depois de várias horas estacionado e voltar pra conferir, roubar salgadinhos de uma reunião a qual você não foi convidado, terminar de fazer aquela pilha de serviço que se acumulava ao longo da semana na hora exata de ir embora, planejar pra onde viajar nas férias, fechar a porta de casa e ir pro aeroporto, sentir-se triste ao perceber que as férias acabaram e que você está de volta à sua realidade.

Prometer a si mesmo não comprar mais nenhum livro ou dvd nos próximos meses e quebrar a promessa no dia seguinte diante de uma promoção que só você acha incrível, perder a hora navegando na internet, admitir pra si mesmo que está apaixonado, cantar no chuveiro, comer um doce depois de muito tempo sem comer um, ficar lendo até de madrugada e mesmo morrendo de sono assistir a um filme depois, escrever e achar que o texto está bom sem precisar de nehuma correção, esperar ansiosamente pelo episódio da próxima semana de uma série qualquer, ir ao cinema e sair tonto de lá, encontrar-se com os amigos de infância e ficar horas jogando conversa fora, parar no frio gelado da madruga na beira de uma estrada pra tomar um café antes da partida do ônibus.

Chegar cansado do trabalho e assistir a um episódio daquela série que você adora e sentir-se renovado, acordar no sábado de manhã e ter a sensação de que terá tempo pra fazer tudo o que precisa ser feito, sentir um turbilhão de emoções ao ouvir uma determinada música, chorar como uma criança ao terminar um livro triste, sentir o cheiro do café enquanto ele escoa pra dentro da garrafa, descobrir que algúem comentou alguma coisa no seu blog, descobrir que alguém que você nem imaginava está apaixonado por você, não entender nada daquele filme ou livro que te indicaram e se achar a pessoa mais burra do mundo, ser reprovado oito vezes no exame de direção e passar no dia em que a sua pauta está vencendo.

O livro é assim mesmo como escrevi acima. Não existe uma lógica certa. Como diz a própria autora: "o que se segue é uma enumeração, uma simples lista, numa única grande frase, que me veio assim, só, intermitente, como um longo monólogo murmurado. Trata-se de sensações, percepções, emoções, pequenos prazeres, grandes alegrias, às vezes profundas desilusões e mesmo dores". 

Vale cada minuto da leitura e ainda serve como reflexão. Cada minuto de nossas vidas, mesmo que pareça apenas mais um é repleto de significados que só poderão ser entendidos e apreciados, muitas vezes, mais tarde.