domingo, 23 de março de 2014

Lepo Lepo, Beijinho no Ombro e a cultura no Brasil

Não é recalque, Beijinho no Ombro é ruim pra caramba

Na última semana dois acontecimentos me levaram a fazer alguns questionamentos que quero debater aqui. Primeiro vou citar os acontecimentos.

1) Cláudia Croitor, autora de um blog de séries americanas que eu acompanho, recebeu o seguinte comentário em uma de suas postagens: ""BRASIL, mostra a tua cara, quero ver quem paga, pra gente ficar assim?! Brasil qual é o teu negócio, o nome do teu sócio?! Confie em mim !" Essa música cabe direitinho na coluna dessa jornalista, como ela gosta de enaltecer a cultura estadunidense, ela quer empurrar na nossa goela, o cotidiano da sociedade americana, acorda sua burguesinha de meia tigela! nossa realidade é outra."

2) Comentei com alguns amigos nunca ter ouvido a música "Lepo Lepo" e pareço os ter ofendido, ficaram bravos, quase ofendidos, perguntando em que mundo eu vivia por não ter ouvido essa música durante o carnaval.

Os dois acontecimentos parecem não ter relação um com o outro, mas tem. A questão da cultura no Brasil. Algumas vezes me pergunto qual é a produção cultural em nosso país nos dias de hoje e na maioria das vezes me respondo, não há. Juro que tenho boa vontade e que tento respeitar a opinião alheia, mas é difícil concordar que o país que tem "Lepo Lepo" como principal hit e "Beijinho no Ombro" como segundo colocado tenha alguma coisa boa a oferecer.

Na televisão aberta nem me atrevo a tentar encontrar alguma coisa boa pra assistir. Não sei se prefiro ver novela da rede globo ou novela mexicana do SBT, jornal de tragédia ou jornal água com açucar da globo, talvez deva escolher alguma coisa entre o programa do Rodrigo Faro e do Gilberto Barros ou do Faustão e da Eliana! Sério, tenho muita vergonha da nossa tv aberta que só produz porcaria, salvo raras excessões.

Nas telonas a coisa parece ser ainda pior, nossas produções são terríveis, ou mostram a "realidade brasileira" através de favelas, ou é alguma comédia de quinta categoria. Alias, não consigo pensar em nenhum comediante realmente bom atualmente. E não venham com o pessoal do Porta dos Fundos e similares porque acho que a comédia que eles fazem só funciona pra internet. Também não citem Zorra Total ou A Praça é Nossa, tais programas já deviam ter sido banidos a muito tempo.

E em matéria de livros? Qual o nosso principal autor no momento? Augusto Cury com sua auto ajuda de boteco é um dos únicos autores brasieliros que figuram nas listas dos mais lidos. Nem considero auto ajuda literatura, então acho que ele não conta. O outro, adivinha? Auto ajuda também, do padre Marcelo Rossi! A gente anda consumindo muita auto ajuda, não? Talvez no teatro a coisa não vá tão mal, nem com a dança, mas eu não sei nada dessas artes, então não posso citar.

E quando meu país não me oferece quase nada em termos de cultura pra consumir o que eu faço? Corro pra onde eu posso ter alguma coisa! E qual o país que mais facilita esse tipo de coisa? Estados Unidos da América! Quem nunca viu Sessão da Tarde que atire a primeira pedra! Quem nunca viu Friends ou um filme arrasa quarteirão? Quem nunca leu um livro de autor americano? Me desculpem os que acham que eu sou americanizado porque consumo a cultura de lá, mas é o que dá pra fazer. Eu juro que não gosto de ferir a opinião de ninguém, mas feriram a minha e eu digo: a produção cultural brasileira é horrível.

Em que mundo uma música que tem como letra: "Eu não tenho carro/Não tenho teto/E se ficar comigo é porque gosta/do meu/rá rá rá rá rá rá rá/Lepo Lepo" ou "Não sou covarde, já tô pronta pro combate/Keep Calm e deixa de recalque/O meu sensor de periguete explodiu/Pega sua Inveja e vai pra... (Rala sua Mandada)" pode ser sucesso por várias semanas seguidas?! Sério? Não dá! Desculpem minha indignação, mas não podem chamar a mim ou quem decidiu não consumir esse lixo todo de não brasileiros. Quero consumir qualidade ora bolas e vou onde me derem isso!

Posso consumir qualquer coisa de qualquer lugar, não importa, desde que tenha qualidade. Pode ser da África, da Malásia, da Coréia, do Japão, da Venezuela, não importa. Consumo cultura americana porque é mais fácil, e digo, melhor que a brasileira, infelizmente é verdade. Mas não sou cego, critico quando tenho que criticar. A tv americana aberta, por exemplo, anda tão ruim quanto a brasileira. Não aparece nada de qualidade há algum tempo, com o cinema de Hollywood a mesma coisa. Em termos musicais também nada muito bom.

Enxergo um certo padrão, as pessoas dizem que eu sou velho pra minha idade, e eu concordo. Prefiro uma boa reflexão a uma balada, um rock'n roll a um samba, um livro a um 50 Tons de Cinza. Talvez isso explique porque eu goste tanto de músicas de 40, 50 anos atrás, filmes antigos, séries que já acabaram, livros escritos a dezenas de anos. Não só de produções americanas, mas nacionais também. Consigo citar uma infinidade de coisas boas daqui e de lá que já acabaram, do das que estão no ar agora.

Como eu gostava do antigo som dos Titãs, Cazuza, Renato Russo, Deijavan, Milton Nascimento, Chico Buarque, Lulu Santos, Rita Lee, Gonzaguinha, Simone, Sandra de Sá, Cássia Eller, Raul Seixas. E até de algumas novelas, Renascer, O Rei do Gado, Rainha da Sucata, O cravo e a Rosa, Chocolate com Pimenta. E de humor? Tínhamos programas do Chico Anísio e do Jô Soares. Tínhamos o Sai de Baixo e o Casseta e Planeta e a TV Pirata. E o que temos agora? Chiclete com Banana e Cláudia Leite? A nova novela dos ricos do Leblon em que nada acontece? Pânico na TV?

Não estou dizendo que não existe nada bom, existe, mas não faz sucesso. As pessoas não querem consumir nada muito bom ao que parece. Há uma infinidade de boas bandas brasileiras no mercado chamado de underground. Também há muitos bons autores por lá. A mesma coisa no mercado americano, mas o que eu quero mostrar é que lá a produção de coisas com qualidade ainda é maior do que aqui. E se aqui as coisas não andam muito bem eu vou pra onde eu consiga alimentar meu cérebro ao invés de deixá-lo atrofiado em nome de um nacionalismo cego.

E é esse nacionalismo cego que, ama tudo o que há no país, que não permite criticar o que precisa melhorar. Viver a realidade brasileira não significa alienar-se dentro do país, meter-se dentro de uma favela, saber detalhes de todos os assassinatos, escutar funk, ver faustão e novela das nove. É preciso deixar de achar que procurar por coisa de qualidade é mania de burguês, que quem lê é chique ou que quem gosta de estudar é cdf, isso é dever de todos nós. Fechar os olhos pros nossos problemas e colocar a culpa de tais mazelas nos EUA em Portugal e o escambal é se eximir da culpa, é típico de um povo terceiro mundista que acredita estar torcendo por seu país mas só contribui para afundá-lo mais.