domingo, 19 de janeiro de 2014

Sobre pessoas que se acham e pessoas humildes

Se tem um tipo de pessoa que eu detesto são as que se acham, as petulantes, donas da verdade e da razão. Suas verdades são sempre as únicas, e todo o resto carrega uma pitada de imbecilidade. Olham de cima de sua arrogância com desdém para todos os que habitam a terra dos coitados. São os pseudo-inteligentes ou pseudo-intelectuais, conhecedores de todas as coisas do mundo estão sempre a explicar alguma coisa, a corrigir os erros alheios, a dar dicas e opiniões.
Quando contrariados esses seres, donos da verdade, agem como se estivessem em um campo de batalha. Com poucos argumentos a seu favor se sentem ofendidos, ou melhor, agredidos e partem pra cima de seu oponente com violência e rancor, como se tivessem sido feridos. Cabe ao mortal do outro lado da briga abaixar a cabeça e ir embora. Quando tem a reação contrária, os sabe tudo, te dão um tapinha nas costas e vão embora, mas jamais admitem estar equivocados.
É possível identificar esses seres que se acham a última bolacha do pacote de várias formas.
*Pela forma que andam: geralmente são extremamente auto-confiantes uma vez que são profundos conhecedores da vida e não tem nada a perder. Andam como pavões, de uma forma meio exibida, meio confiante de mais.
*Pela forma de falar: essa variável costuma variar de criatura pra criatura, mas no geral falam com extrema propriedade sobre diversos assuntos, costumam analisar situações aparentemente banais transformando-as em verdadeiras teses de mestrado. Muitas vezes, gostam de explicar teorias e conceitos a respeito de assuntos que ninguém se importa, nesses casos, costumam usar um linguajar mais didático para que os pobres mortais compreendam ao menos o básico de toda a sua cultura. Por vezes, os sabe-tudo ainda são contestadores de quase toda convenção;
*Pelo que escrevem: seus textos são geralmente testamentos. Na maioria das vezes fazem uso de palavras difíceis para mostrar seu vasto vocabulário, utilizam exemplos da própria vida para mostrar seu ponto de vista e também exibir sua trajetória inspiradora de vivências inesgotáveis. O texto inteiro tem um ar meio superior como que se estivesse rindo de quem lesse. O texto pode ainda conter algum tipo de ironia e na maioria das vezes indica conselhos ao leitor, afinal, os que se acham, acham que suas opiniões são incríveis e devem ser seguidas a risca por todos. Muitas vezes esses seres ainda se vangloriam dizendo dispensar comentários contrários ao seu.
Humildade. Como aprecio essa palavra. Deveria ser pré-requisito a todos os seres humanos. Pessoas humildes são, em sua maioria, pessoas que respeitam os outros. Humildade requer respeito ao outro. Como admiro pessoas que são realmente inteligentes, e realmente sabem muito de quase tudo na vida e ainda assim são humildes. Essas pessoas deveriam ser exemplos, inspiração. Me pergunto, pra que cuspir na cara dos outros toda a sua sabedoria, inteligência, conhecimento?
E o que mais me enjoa é que essas pessoas, na maioria das vezes, não são tão vividas quantos as humildes. Na maioria das vezes esses sabe-tudo adquirem seu conhecimento cercado das paredes de sua casa, do conforto do seu dinheiro, do seu carro, dos seus livros. Quem são esses conhecedores de tudo se, se quer viveram experiências de verdade? Se nem se permitiram sair da bolha em que vivem?
Ninguém, repito, ninguém tem o direito de achar saber mais que os outros, de achar que tem mais cultura que os outros, que é mais esperto, mais letrado, mais inteligente, mais nada. Ninguém sabe da vida de ninguém, essa é a verdade. Ninguém tem o direito de julgar ninguém pela casca sem saber o conteúdo. Como dizia aquela música dos Titãs: “cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração”. Como achar-se melhor que alguém cujas experiências não se conhece?
As pessoas humildes não dão opiniões quando não solicitados, não palpitam sobre a sua vida ou suas escolhas quando bem entendem, não corrigem tudo o que você fala, não tem prazer em discordar de tudo ou quase tudo, não dissertam sobre teorias chatas e conceitos inúteis, não contam suas experiências como em uma competição, não analisam tudo e todos, não se sentem agredidas quando contrariadas ou indagadas de alguma coisa, não são exibidas, não são prepotentes e nem petulantes. Os sabe tudo são previsíveis, os humildes, surpreendentes.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Buffy, a caça vampiros

Adeus, Buffy
Há pouco mais de dez dias assisti, num misto de alegria e tristeza, a série que mais me marcou e que se manterá nessa posição pelo resto da minha vida: Buffy, a caça vampiros. Olho pra história, pra esses personagens e pra série com um carinho que sequer consigo descrever. Ao longo dos anos criei um laço tão forte com Buffy que agora, após terminá-la, sinto que uma importante parte de mim se foi.
Apesar de ter terminado de ver essa série com dez anos de atraso, passei a degustar cada uma das últimas três ou quatro temporadas com tanto cuidado que levei exatamente cinco anos pra terminá-la. Minha história com a série começou em 2008 quando a RedeTV a estreou nas tardes de domingo. Lembro-me de ter visto o anúncio, por acaso, no jornal de sábado e me lembrei de ter visto o filme algumas vezes na Sessão da Tarde.
O mais incrível é que havia gostado do filme, apesar de ter sido um fracasso retumbante de crítica e de público quando foi ar, no início da década de 90. Assisti ao primeiro episódio e fui fisgado logo de cara, passei a ver todos os episódios, todos os domingos. Ainda me lembro de trabalhar aos domingos na época – um trabalho bem exaustante por sinal – e me lembrar de que chegaria em casa pra assistir Buffy, deitado no sofá, era um alívio gigantesco.
Buffy continua após o final da série
Muitos devem concordar que a segunda temporada é uma das melhores da série – talvez a melhor – com uma sucessão de episódios geniais, um atrás do outro, a gente chega a ficar doido esperando o próximo. E nossa querida RedeTV, já mostrando sinais de sua seriedade com a programação, nunca exibiu os três últimos episódios dessa temporada. Lembro-me de ter ficado desesperado e inconformado a ponto de mandar emails mal criados para a emissora.
Minha relação com downloads não era nada boa na época, mas decidi passar por cima do meu medo de estar praticando pirataria e ser preso – sim, eu achava que um helicóptero da PF invadiria meu quarto pela janela e me levaria pra um interrogatório violento em Brasília – para ver os episódios. As demais temporadas decidi andar dentro da lei e adquirir os DVDs. E mais uma vez fiquei indignado ao saber que a dona FOX não lançou, e muito provavelmente nunca lançara, as duas últimas temporadas por aqui.
Por tudo isso posso dizer que foi Buffy a série que me fez entrar no mundo das séries de tv, que me fez encontrar os downloads, que me fez passar horas e horas pesquisando sobre ela na internet, que me fez gastar meu suado dinheiro em dvds. Buffy é muito mais que uma série sobre uma garota que caça vampiros, é uma série sobre sentimentos, conflitos, decepções, amores, desapontamentos e principalmente sobre amizade.
Nunca a tv fez um grupo de amigos ser tão real quanto em Buffy. Xander, Wilow, Buffy e Giles estarão pra sempre no imaginário de quem acompanhou a história porque representam nossos amigos, eles agem como nossos amigos, são como eles, aqueles amigos do peito mesmo, que você carrega pro resto da vida, aqueles que você faz no colégio e que ficam com você depois de adultos.
Buffy é uma grande série porque é sobre os conflitos e dilemas que enfrentamos todos os dias em nossas vidas. Buffy mata um demônio em cada episódio assim como nós temos que matar nossos demônios interiores e os demônios que a vida coloca em nossa frente todos os dias pra continuar caminhando. As vezes caimos, nos machucamos, mas nos recuperamos a com ajuda de quem nos ama e voltamos pra batalha sabendo que não será a última, mas apenas mais uma de tantas outras.
Buffy começa a história indignada por não poder ter uma vida normal e ter a responsabilidade de salvar o mundo. Quantos de nós já não nos sentimos assim? Quantos de nós não queríamos apenas viver por viver, deixar a vida nos levar, mas somos tomados por tantas outras responsabilidades? Quantos já não quisemos viver outra vida, ser outra pessoa, ouvir o que os outros pensam, amar sem haver amanhã ou simplesmente sumir do mapa, mudar de nome e esperar as coisas se resolverem sozinhas?
Buffy trata de tudo isso com uma peculiaridade e uma delicadeza difícies de serem vistos em uma série de tv aberta, principalmente teen. Buffy é uma série feita pra adolescentes, mas por sua sagacidade e inteligência destina-se a todos. Todos deveriam ver essa obra que metafora com a vida em cada um de seus vinte e dois episódios distribuídos em sete temporadas. Buffy trata da morte, da sexualidade, da eternidade, da felicidade, do céu e do inferno como ninguém. É uma série completa.

Fez um dos melhores episódios musicais da história, outro completamente mudo – talvez o mais aterrorizante de todos – matou sua protagonista duas vezes, levou-a ao inferno e ao paraíso, a fez matar o grande amor da sua vida e trazê-lo de volta, a fez enterrar sua mãe – o mais lindo episódio de todos – e a salvar o mundo. E assim como na vida Buffy terminou em silêncio, no meio de uma estrada, de um lado a finada cidade em que viveu durante esses sete anos e mudou sua vida, do outro um caminho, um destino qualquer. Uma bela analogia à nossa vida: quase sempre precisamos deixar alguma coisa pra trás e continuar seguindo em frente sem nem ao menos saber o que esperar ou como agir.
******************
A série terminou em 2003, mas há três anos ela retornou em HQ mostrando os acontecimentos posteriores ao final da série. A Panini chegou a lançar uma parte dos quadrinhos por aqui, mas cancelou pouco tempo depois. Nos EUA elas já vão pra terceira edição e é considerada um sucesso. Minha opinião pessoal? Não gostei muito, prefiro finalizar a série onde ela realmente terminou.
Preparei mais duas postagens sobre a série e vou postá-las nas próximas semanas.
Comprei um livro bastante interessante sobre Buffy e assim que terminar de lê-lo postarei por aqui também.