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| Walter White (Bryan Craston) em Breaking Bad |
Agora ela já tem diversos prêmios – incluido melhor série dramática – e bateu recordes de audiência em seu final. E que final grandioso. É raríssimo uma série conseguir terminar de forma grandiosa através de tanta simplicidade. Simplicidade que permeia toda a história, principalmente no início, mas que vai se desenvolvendo aos poucos, se complicando, se aprofundando em si mesma, até explodir, até chegar ao fim inevitável. Que história fantástica, que viagem maravilhosa assistir os cinco anos dessa série.
Foi como ler um livro, degustando cada página, onde os passos do protagonista são acompanhados aos poucos, sem pressa, construído devagar, sendo tecido detalhadamente. Apreciando cada diálogo. Mas melhor que um livro essa série nos deu de presente um visual fantástico, nunca vi tamanha maestria com as imagens, com os sons. Consigo comparar essa série a uma obra de arte, a fotografia é praticamente um personagem que fala por si só. Cada objeto em cena tem um propósito, uma função, nada é em vão, nada é gratuito. Uma situação apresentada dez, vinte episódios antes, retorna depois totalmente costurada na trama. É impecável o trabalho dos roteiristas.
Terminei de ver com a alma lavada, como se tudo o que eu esperava tivesse acontecido, como se eu tivesse ganhado um presente por acompanhar cada momento dessa série. Não é sempre que somos premiados com personagens tão fantásticos (que nos fazem torcer por um cara que não merece torcida) e texto tão primoroso. Não é sempre que ficamos parados em frente à teve enquanto sobem os créditos finais, refletindo. Breaking Bad nos faz refletir sobre a vida. E é por essas séries que continuamos vendo tantas séries, por elas vale a pena.
Pode parecer exagerado pra quem não acompanha o mundo dos seriados – sim, existe toda uma cultura envolta desses programas – mas essa série faz o telespectador refletir sobre diversas questões, principalmente as morais. A dualidade entre o bem e o mal existente em cada um de nós; o certo e o errado. Sobre as decisões que tomamos e que vão refletir em nosso futuro, sobre a importância que o dinheiro toma na vida da gente, sobre família, sobre amor, ódio, amizade, liberdade e o que mais alguém conseguir enxergar alí.
Ana Maria Bahiana foi provavelmente quem melhor conseguiu expressar essa série, através da definição de tragédia de Aristóteles. “Uma narrativa dramática concentrada num grupo de personagens, em um lugar e período definidos, cuja ação é deflagrada pelas escolhas equivocadas de um protagonista complexo, com consequências que ecoam em todos à sua volta e fazem a plateia refletir sobre a condição humana.”
Particularmente, acho que toda história contada deveria ser assim. Seja na televisão, no cinema, no rádio ou nos livros, uma história contada tem que produzir algum efeito emotivo sobre nós. Somos um turbilhão de emoçoes e explorar cada uma delas é tarefa obrigatória para quem conta alguma história. Não gosto de perder tempo com narrativas vazias, superficiais, que não afetam minha vida de alguma forma – talvez por isso sempre tenha preferido os dramas às comédias. Ou tramas que duvidam da minha inteligência e não exigem o menor esforço pra ser decifradas.
De novo, pode parecer exagero dizer que uma narrativa qualquer seja capaz de afetar a vida de uma pessoa, mas não é. Nem que seja um minúsculo pedaço da gente, cada coisa que ouvimos, vimos, sentimos é alterada. Principalmente quando sentimos. Uma história que consegue arrancar lágrimas ou, ainda melhor, gerar um minuto de reflexão, conseguiu, de alguma forma, deixar sua marca, pra sempre. Tento aprender um pouco da vida em cada coisa que assisto e leio porque nunca consiguirei experimentar todas as possibilidades da vida, assim, tenho certeza que tudo o que já vi, já li, já ouvi, fez de mim um ser humano melhor ou, ao menos, mais completo.
E Breaking Bad fez isso por mim, refleti por bastante tempo, sozinho no escuro, depois que os créditos subiram na tela negra. Obrigado Breaking Bad, por me proporcionar toda essa experiência. Obrigado por fazer meus quarenta minutos nos últimos cinco anos muito bem empregados.
E se você ainda não viu essa série, corre, é espetacular.
